Sob o obscuro céu da depressão
- Flávia Pagliusi
- 10 de fev. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 19 de fev. de 2024

A depressão é uma batalha emocional cada vez mais comum nos dias de hoje, fruto de uma mistura complexa de fatores genéticos e predisposições, mas principalmente do contexto no qual estamos inseridos. Com pressões e expectativas cada vez mais altas e mundos ideais fabricados para serem visualizados nas vitrines das redes sociais, fomos gradativamente colocando sobre os ombros dos indivíduos a responsabilidade pelos sucessos e fracassos, sem levarmos em consideração a problemática dinâmica social a que estamos submetidos. A busca e o apelo incessantes da alta produtividade e da realização material criam um ambiente propício para que os sintomas depressivos apareçam, alimentados pela sensação de inadequação e pelo sentimento de constate competição. Buscamos sempre fazer mais em menos tempo, perdendo, no meio do caminho, a conexão com o nosso próprio desejo.
Além disso, experiências dolorosas ou traumáticas podem deixar cicatrizes emocionais profundas que ressoam em nossa vida adulta, também contribuindo para o surgimento de sintomas depressivos. Nossa estrutura familiar e a rede de apoio com que podemos contar - como amigos, vizinhos e pessoas da nossa comunidade -, o acesso a serviços básicos de saúde, bem-estar e cultura, espaços para fruição da nossa espiritualidade, as expectativas que os outros têm de nós bem como as nossas próprias expectativas, sonhos e desejos de futuro. É a partir dessas memórias e fantasias, reais ou inventadas, que vamos criando o tecido da nossa psique; mecanismos mais ou menos funcionais para que possamos dar conta e seguir em frente. Acontece que muitos desses recursos operam bem por um período até que deixam de fazer sentido e o sofrimento e a angústia tomam conta.
No entanto, em meio a essa neblina escura e avassaladora, existe também uma oportunidade de olhar com cuidado e afeto para as linhas narrativas da história que estamos escrevendo. A psicanálise nos convida a explorar, através da palavra, mas também dos gestos, silêncios e sensações, nossas fantasias a respeito da vida, das relações, dos amores e experiências de ontem e de hoje, nos ajudando a enxergar novamente, em meio a esse horizonte sombrio, o fio de Ariadne que nos leva ao encontro do nosso próprio desejo.
