E se eu ficar em silêncio na sessão de terapia?
- Flávia Pagliusi
- 4 de jul.
- 2 min de leitura
Atualizado: 14 de out.
Essa é uma dúvida comum e persistente. Geralmente vem associada à ideia de que, em uma sessão de terapia, é preciso falar o tempo todo. Muitos pacientes chegam, inclusive, a experimentar certa ansiedade quando o silêncio se instala na sessão, apressando-se a preenchê-lo a qualquer custo.
O que a psicanálise nos mostra é que o silêncio é mais revelador do que se imagina, podendo desdobrar múltiplos significados e funções. Por isso mesmo, o analista deve escutá-lo com a mesma atenção e cuidado que dirige às palavras, atentando para as suas singularidades naquele processo terapêutico em particular. Quando o silêncio vem? Quanto tempo ele dura? É realmente um silêncio ou está pontuado por outros sons que não a fala (como uma tosse, um bocejo, um cantarolar)? O que diz o corpo do paciente durante esse silêncio, como se coloca na cadeira ou no divã? Será que ele vem porque o paciente não tem mesmo nada a dizer ou será que surge quando o que se tem a dizer é embaraçoso, vergonhoso, íntimo? O silêncio pode, ainda, sinalizar o descanso tranquilo, a capacidade de estar só na presença de uma outra pessoa, como teoriza o psicanalista inglês Donald Winnicott.
Independentemente, em um processo analítico, ficar em silêncio na sessão de terapia não é um incômodo a ser evitado, mas um momento legítimo da experiência clínica. A escuta da psicanálise não se (pre)ocupa em preencher vazios, mas em acompanhar o que emerge, mesmo na ausência de palavras. Por isso, é importante lembrar: não é preciso ter um roteiro, nem mesmo se preparar para uma sessão de análise, trazendo uma "lista de assuntos" organizados. A análise acontece no não saber, no tropeço, na pausa e também no silêncio. E aprender a escutá-lo faz parte do processo!



